
Esta narrativa foi escrita durante as caminhadas que efectuámos pela via-férrea do Vale do Rio Tua que será, em parte, submersa se for construída a Barragem Hidroeléctrica de Foz-Tua.
Todos os textos apresentados em itálico são passagens bíblicas
Jorge Laiginhas/Leonel de Castro
I - Apenas existe aquilo que a nossa memória guarda.
No princípio criou Deus os céus e a terra.
A terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus movia-se sobre a face das águas.
E disse Deus:
- Haja luz.
Houve luz.
Viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas. Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.
E disse Deus:
- Haja uma expansão no meio das águas, e haja separação entre águas e águas.
Fez Deus a expansão, e fez separação entre as águas que estavam debaixo da expansão e as águas que estavam sobre a expansão; e assim foi. Chamou Deus à expansão Céus, e foi a tarde e a manhã, o dia segundo.
E disse Deus:
- Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num lugar; e apareça a porção seca; e assim foi.
Chamou Deus à porção seca Terra; e ao ajuntamento das águas chamou Mar; e viu Deus que era bom.
E disse Deus:
- Produza a terra erva verde, erva que dê semente, árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente está nela sobre a terra; e assim foi. E a terra produziu erva, erva dando semente conforme a sua espécie, e a árvore frutífera, cuja semente está nela conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom. E foi a tarde e a manhã, o dia terceiro.
*
A Luísa encontrou o meu pai morto, arrefecido, no chão do quarto onde era suposto encontrá-lo esperto. Tinha a cabeça aberta e havia salpicos de sangue no chão e na mesinha de cabeceira.
*
Colocaste as nossas faltas à tua frente
os nossos segredos sobre a tua luz.
*
Seis horas da manhã.
Viajar pela via-férrea do Tua – talhada a machado por deuses escravizados – é experimentar o efeito alucinogénio de pendurar os olhos numa janela donde se vê o chão do céu. Começou por ser um rio de esperança, a linha do Tua. Um rio de esperança que o sono dos homens afugentou. É, agora, antecâmara das memórias. Um modo ingénuo de gastar o que resta da sola dos sapatos ou, quiçá, o derradeiro sopro antes da nudez. Uma certa ocultação, por intermédio de metáforas, dos suspiros que suspiramos e não queremos. É não entregar o corpo – o nosso corpo ainda morno – às águias da noite.
O desassossego da passarada acorda-me. Apalpo-me. Dou pelo frescor da madrugada colado à minha pele. Estremunhado, espreito os ombros das montanhas a nascente em busca de uma nesga de sol. Em vão.
Espíritos, juncando o chão, murmuram um qualquer boato obscuro. A língua do vento apaga as velas da madrugada e eu, pecador, benzo-me para afastar os mosquitos. Não. De todo. Não me benzo para remissão dos meus pecados. Não. Benzo-me para afastar os mosquitos que zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz me picam os olhos. Os meus olhos.
A estação
[estação do caminho-de-ferro, vulgo, estação dos comboios]
de Foz Tua, lambida por uma melosa quietude, apresenta-me as sombras, com as quais dormira. Cumprimentamo-nos dentro da ausência. Uma ausência afiada no gume do crepúsculo.
Para lá da lousa distante do céu adivinho um lugar onde todas as chagas cicatrizam. A luz, coada pelas nuvens rasantes, ganha a agudeza de uma lâmina. Repudio as sombras oleosas que escorregam pelo vale delindo as arestas das penedias circundantes.
*
Fiquem envergonhados e confundidos
aqueles que buscam perder a minha vida!
Recuem e fiquem envergonhados
aqueles que tramam a minha desgraça!
Fiquem mudos de vergonha
aqueles que se riem de mim!